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pintura abstrata

Quando o Corpo Volta a Ser Casa

Há momentos em que algo em nós pede atenção. Deixamos de estar confortáveis no nosso próprio corpo. Pode começar de maneira subtil, quase a pedir-nos licença para entrar. De forma inconsciente, deixamos. E a permanência pode ser difusa; ela não grita. É impermanente. Não dramatiza, apenas pulsa. Até que um dia, a visita torna-se permanente: uma tensão no maxilar; um peso no peito; um vazio no abdómen...


Durante muito tempo, aprendemos a ultrapassar estas sensações. A racionalizar. A manter o controle. A funcionar... E o corpo, fiel à sua missão de nos proteger, vai-se adaptando...



Muitas vezes esquecemos que o corpo não está contra nós. Ele está - sempre - a favor da nossa sobrevivência.


Como escreve Bessel van der Kolk, em The Body Keeps the Score, “O corpo mantém a marca do que a mente tenta esquecer.”


O corpo não guarda para nos punir. Guarda porque a memória fisiológica é uma forma de proteção. O sistema nervoso aprende com a experiência. E, quando algo foi vivido como ameaça, o corpo passa a antecipar.


Contudo, antecipar não é viver. E proteger não é o mesmo que estar seguro. Reaprender a escutar o corpo começa com um movimento simples: curiosidade.


Peter Levine, criador da Somatic Experiencing®, recorda que "o trauma não está no evento, mas no sistema nervoso.” Isso significa que o que precisa de reorganização não é a história em si, mas a resposta fisiológica que ficou ativada.


Quando, com suavidade, perguntamos: “O que estou a sentir agora?” e depois aprofundamos: “Onde sinto isto no corpo?” algo começa a mudar.


Dar nome à sensação — aperto, calor, formigueiro, contração — e localizar onde ela se manifesta ativa áreas do cérebro associadas à integração emocional, como o córtex pré-frontal medial. Daniel Siegel descreve este processo como “name it to tame it” — nomear para regular.


Ao identificarmos claramente o que sentimos e onde sentimos, criamos três movimentos reguladores:

1. Reduzimos a ativação difusa — a sensação deixa de ser um estado global de ameaça e passa a ser uma experiência localizada;

2. Restabelecemos orientação no presente — distinguimos entre memória e realidade atual;

3. Ativamos a função integradora do cérebro — o sistema nervoso passa de reatividade para organização.


Não se trata de magia. É neurobiologia. É a curiosidade segura como gesto regulador. Quando sabemos o que sentimos, o corpo organiza-se


A indefinição gera ansiedade, enquanto quando assumimos o que sentimos, transforma a clareza que gera a estabilidade. Quando alguém diz “estou mal”, o sistema nervoso permanece em alerta. Quando essa mesma pessoa diz “sinto um aperto no peito e uma pressão nos ombros”, o estado interno torna-se mais concreto, mais delimitado - e mais fácil de digerir porque nele existe a definição de um local e nome. Eu sei o que sinto e como sinto. Se consigo nomear, é porque isto existe. E existir traz-nos segurança.


Stephen Porges, com a Teoria Polivagal, explica que a segurança não é apenas uma ideia — é uma experiência fisiológica. O corpo precisa de sinais de previsibilidade para sair do modo de sobrevivência.


Como seria para ti experimentar nomear as tuas sensações boas, neutras e menos boas?


Pode ser que este pequeno exercício abra espaço dentro de ti, para conheceres mais como te sentes e como colocas significado naquilo que sentes.


Localizar sensações cria previsibilidade interna. O sistema nervoso compreende que há consciência. E a consciência é um marcador de segurança. Começas a saber com quem estás a lidar.


E não é que, afinal, sentir pode ser seguro? Pode haver dor, mas pode também haver sensações agradáveis, aprendizagens, linguagem de um alfabeto que precisas treinar todos os dias para poderes falar com fluência.


Com o tempo, isto traduz-se em benefícios muito concretos:

● maior tolerância ao desconforto emocional;

● redução da hipervigilância;

● melhoria da capacidade de tomar decisões com clareza;

● maior estabilidade nas relações;

● recuperação mais rápida após momentos de stress;

● sensação de enraizamento e presença.


Sentir com consciência não aumenta a dor. Organiza-a.


Há caminhos que nos ajudam a cultivar esta escuta de forma acompanhada, estruturada e segura. Caminhos onde o corpo deixa de ser um território desconhecido e se torna um aliado. Porque talvez o verdadeiro autoconhecimento não seja descobrir algo novo, mas recordar aquilo que o corpo sempre soube. E quando isso acontece, o sentir deixa de ser ameaça. Passa a ser casa.


Como é, para ti, habitar o teu corpo?



Notícias Menssana:


Nos próximos dia 28 de Fevereiro e 1 de Março de 2026, o Instituto Menssana tem o gosto de receber, nas suas instalações, em Gaia, a parceira Camila Leite, que facilitará a oficina imersiva "Sentir Autêntico". O programa, que proporcionará um caminho de regresso em segurança ao corpo e ao sentir, inclui uma mentoria individual online pós- imersão para orientação e integração das aprendizagens.




Informação detalhada e inscrições em https://forms.gle/7uSzBQBq6VwLY62F9

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